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OBESIDADE

Novas técnicas de cirurgias

No Brasil são realizadas, anualmente, 30 mil intervenções bariátricas.

Júnia Gama

             A obesidade é uma das doenças que mais mata no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A gordura em excesso não é apenas um inconveniente estético, mas um problema que pode comprometer todo o funcionamento do organismo e, em casos extremos, levar à morte. A cirurgia bariátrica, popularmente conhecida como redução de estômago, vem sendo utilizada cada vez com mais freqüência no Brasil. Nos últimos dois anos, houve um aumento de 223% neste tipo de intervenção. Hoje,  cerca de 30 mil cirurgias são feitas no Brasil por ano. Desse total, menos de cinco mil são gratuitas, pagas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

             E como a população está cada mais obesa –  atualmente, 41%  dos brasileiros são vítimas da obesidade, em contraste aos 17% registrados na década de 1980 – novas técnicas vão surgindo, cada uma adequada ao perfil e às expectativas do paciente.

Norma Lilia (D): Voltei a ser o que era. Danço, dou aula, agacho e rolo no chão

             Atualmente, a cirurgia mais utilizada no Brasil e nos EUA é o Bypass, uma redução do estômago por meio de grampeamento. Divide-se a cavidade estomacal em duas partes, deixando um espaço menor (20 a 30 ml),  por onde o alimento irá transitar.

             Esta técnica está substituindo a cirurgia de Capella que, além da redução, introduz um anel no estômago, o que aumenta a possibilidade de problemas futuros e rejeição (veja no quadro abaixo). Por outro lado, o médico Walter Pires, do Centro Brasiliense de Cirurgia e Endoscopia, sustenta que a banda gástrica (uma prótese de silicone ajustável colocada em volta do estômago, em forma de anel, que o aperta e reduz sua capacidade e pode ser retirada a qualquer momento) tem sido o método mais divulgado nos congressos internacionais.

             "Não há complicações, mortalidade, ela é reversível e ajustável", explica o médico. Para ele, deve ser a primeira alternativa, já que os riscos são bastante inferiores ao do Bypass. A escolha do método, entretanto, se dá por um consenso da equipe médica com a aceitação ou não final do paciente após as devidas explicações sobre os procedimentos disponíveis.

             Quem gosta muito de doces ou é beliscador, por exemplo, geralmente não se dá bem com a banda gástrica porque os alimentos pastosos deslizam sem dificuldade pelo anel e a pessoa engorda. Quem tem um comportamento compulsivo também não se adapta  com a banda e tem dificuldades com a técnica de Capella, pois a restrição de volume lhe causa grande desconforto e vômitos freqüentes. Quem é comedor de carboidratos tem mais resultados com as cirurgias disabsortivas (parte do estômago é retirada).

             Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 1,5 milhão de brasileiros sofrem de obesidade mórbida, ou seja, possuem o Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 40, número obtido por meio da divisão do peso pela altura ao quadrado. O Brasil segue de perto o exemplo dos Estados Unidos, o país do fast-food, acompanhando uma tendência mundial. Mais de 60% da população americana é obesa, e 7% são obesos mórbidos. Além da rede pública, os planos de saúde cobrem as cirurgias bariátricas. É obrigatória para os contratos assinados a partir de janeiro de 1999 e anteriores à Lei 9.656/98, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Exames são essenciais

             Mas antes de definir qual o tipo de cirurgia deve ser adotada, é preciso fazer uma bateria de exames. No último dia 7, a estudante Giovanna Salgueiro Soares Pereira, 20 anos, de Belém (PA), deu à luz uma menina em pleno vôo, sem  saber que estava grávida. A jovem havia passado por uma cirurgia de redução de estômago dois meses antes e os médicos achavam que ela estava inchada em decorrência de um problema pós-operatório. Por isso, uma gravidez nem foi cogitada.

             Desta vez, apesar do susto, tudo correu bem. No entanto, quando se trata de uma cirurgia tão arriscada, quanto a bariátrica, contar apenas com a sorte pode ser demasiadamente perigoso. A coreógrafa e ex-bailarina Norma Lilia, 62 anos, passou por difíceis momentos devido a um erro na avaliação dos exames por parte do médico que a operou, há cerca de cinco anos. Norma sempre tinha sido muito magra, mas depois do terceiro filho teve um desequilíbrio hormonal que a levou a acumular o dobro do seu peso normal, 60 quilos.

             Sujeitou-se  a uma bateria de exames que foram mal analisados pelo médico. "O que era para ter sido feito em uma semana acabou virando dois meses de internação. Fiquei à beira da morte", diz. O erro foi comprovado posteriormente por outros profissionais. Foram meses de luta e quase R$ 50 mil gastos. Mesmo traumatizada com hospitais, ficou satisfeita com o resultado. "Olho no espelho e vejo a mesma Norma que dançava, com 33 anos", conta. Hoje em dia, com 59 quilos distribuídos em 1,63m, leva uma vida normal e, apesar dos problemas que enfrentou, não está arrependida. "Voltei a ser o que era, danço, dou aula, agacho e rolo no chão", comemora.

Psicológico

             Além dos exames,  o condicionamento psicológico é de extrema importância. Quem está acostumado a ingerir alimentos em grandes quantidades deve adaptar-se, aos poucos, a novos hábitos. Roberto Lúcio (nome fictício), há oito meses começou a preparação para a cirurgia. Durante esse período, perdeu 18 quilos, dos quase 175 quilos que a balança marcava.

             Ele conta que o acompanhamento médico está sendo fundamental e que aprendeu muitas coisas que alteraram sua relação com as pessoas e com o próprio corpo. "Estou aprendendo  a comer de maneira saudável, com frutas e verduras incluídas no cardápio, mastigando bem e me alimentando a cada três horas, hábitos nunca antes utilizados".

             Segundo o médico cirurgião Isaías Neto, do Hospital Santa Lúcia, uma equipe composta por psicólogos, nutricionistas, endocrinologistas é necessária para realizar a cirurgia. Também são feitos vários exames que avaliam a saúde do paciente. "Há pacientes que chegam querendo operar no dia seguinte à primeira consulta. Mas não se pode ter pressa nesse momento. Os exames e controle de doenças, como pressão alta e diabetes, devem ser feitos antes", afirma.

Pode ser a única opção

             Segundo o médico cirurgião  Isaías Neto, do Hospital Santa Lúcia, ainda que a operação bariátrica represente um grande risco para o paciente, o mais perigoso para a saúde está nas doenças associadas ou co-morbidades. Por conta delas, os obesos mórbidos não-submetidos à cirurgia morrem nove vezes mais que os operados. "Há casos em que, se o paciente não se sujeitar à operação, mesmo sendo arriscada, falecerá do mesmo jeito", sentencia Isaías Neto.

             A endocrinologista Maria de Fátima Gonzaga, da equipe do Ambulatório de Obesidade Grave do Hospital Universitário de Brasília (HUB), conta que a piora dos hábitos alimentares, a falta de exercícios e a baixa na qualidade de vida são os principais fatores para o aumento da obesidade em escala global. "A influência genética existe, mas só se manifesta num quadro de alta ingestão de calorias e pouca atividade física", afirma.

             No entanto, em muitos pacientes, a falta de cuidados não é determinante. "Há pessoas que, por questões genéticas, necessitam de uma quantidade maior de alimentos para saciar a fome", relata a médica. Maria de Fátima defende que, para esses indivíduos, é pouco possível perder mais que 5% a 10% do peso apenas com a adoção de hábitos mais saudáveis. É justamente nesses casos, de impossibilidade de uma diminuição expressiva dos problemas derivados de excesso de peso, que a cirurgia de redução é indicada. "É um tratamento radical, extremamente agressivo. Por isso, requer bastante tempo de preparação e o acompanhamento por toda a vida do paciente", diz a médica.

 

Publicado em: 17/11/2007.